Brasil · atualizado em 28 de outubro de 2026 Opinião · Fatos · Cobrança
República Brasileira Quem promete, deve

← Opinião

Opinião

"Fascista!": a palavra que virou xingamento e o vice que já foi chamado assim

A militância chama a direita de fascista. Mas sabe de onde veio o fascismo? E por que o homem desenhado como nazista em 2012 hoje é vice de Lula?

17 de outubro de 2026 · 4 min de leitura
Fatos com fonte no fim do texto Opinião do autor, assumida

Basta discordar do PT em uma rede social para ser chamado de fascista. A palavra virou um xingamento genérico. Vale perguntar: quem a usa sabe de onde ela vem?

Mussolini veio da esquerda

Benito Mussolini passou anos no Partido Socialista Italiano e dirigiu o Avanti!, o jornal oficial do partido. Foi expulso em 1914 por defender a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial. Em 1919 fundou os Fasci di Combattimento, cujo primeiro programa tinha pontos que hoje soariam de esquerda: jornada de oito horas, voto feminino e imposto pesado sobre o capital.

Esse é o argumento de quem diz que “o fascismo é de esquerda”. E ele tem base: a origem socialista de Mussolini é fato documentado.

Mas o fascismo se definiu contra a esquerda

O que o fascismo fez quando chegou ao poder conta mais do que a biografia do fundador. Em poucos anos, os camisas-negras passaram a atacar sindicatos e sedes socialistas com financiamento de industriais e proprietários de terra. Depois da Marcha sobre Roma (1922), o regime fechou partidos e sindicatos independentes, prendeu opositores, com os comunistas como alvo principal, e organizou a economia em corporações controladas pelo Estado, sem abolir a propriedade privada.

O nazismo tinha “socialista” no nome, mas também mandou comunistas e social-democratas para os campos de concentração e privatizou empresas estatais na década de 1930.

Por isso a maioria dos historiadores classifica o fascismo como extrema direita: nacionalista, autoritário, anticomunista e antiliberal ao mesmo tempo. Alguns, como Robert Paxton, um dos maiores estudiosos do tema, admitem que é difícil encaixá-lo no mapa simples de esquerda e direita. Dizer que o fascismo é “de esquerda” é uma tese minoritária. Dizer que ele é “o contrário” do que a militância diz também não se sustenta.

O que se sustenta é outra coisa: fascismo é um regime de partido único, culto ao líder, violência contra opositores e fim das liberdades. Chamar qualquer adversário eleitoral de fascista esvazia a palavra. E quando tudo é fascismo, nada é.

O caso Alckmin

Charge de Carlos Latuff mostrando Geraldo Alckmin com bota e braçadeira com cifrão pisando na comunidade do Pinheirinho
Charge de Carlos Latuff (2012) sobre a desocupação do Pinheirinho.

A imagem acima é uma charge de Carlos Latuff, cartunista conhecido por suas posições de esquerda, publicada em 2012. Ela mostra Geraldo Alckmin vestido como nazista: coturno militar esmagando as casas e a braçadeira vermelha com um círculo branco, idêntica à usada pelos nazistas, com um cifrão no lugar da suástica. A frase “Tradição, Família e Propriedade” ironiza o lema da TFP, um grupo católico ultraconservador. A mensagem da charge é clara: Alckmin seria um nazista a serviço do dinheiro.

O contexto: em 22 de janeiro de 2012, a Polícia Militar de São Paulo, no governo Alckmin, cumpriu uma ordem judicial e desocupou o Pinheirinho, em São José dos Campos. Cerca de 1.500 famílias foram retiradas de um terreno ligado ao empresário Naji Nahas. A esquerda, incluindo PT e PSOL, tratou Alckmin como o responsável direto pela violência da operação. Guilherme Boulos escreveu exatamente isso.

E não foi só a charge. Durante a desocupação, o senador Randolfe Rodrigues, então no PSOL, escreveu nas redes que Alckmin poderia “adotar a suástica como símbolo de seu governo”.

Dez anos depois, Alckmin saiu do PSDB, entrou no PSB e virou vice na chapa de Lula em 2022. Em 2026, é de novo candidato a vice, na disputa do segundo turno. Quando a aliança foi fechada, em 2022, Randolfe, já ao lado de Lula, mudou o tom. À Folha de S.Paulo, disse: “Não tenho dúvida do compromisso do governador Alckmin com a democracia”. E completou: “Em 2012, nem Randolfe nem o Brasil sabiam o que era o fascismo”.

A pergunta que fica

É justo perguntar à militância: se o homem que vocês desenharam como nazista e associaram à suástica em 2012 hoje é o vice do seu presidente, o que a palavra “fascista” realmente significa para vocês? Um conceito histórico ou só o nome que se dá a quem está do outro lado naquela eleição?

Fontes

fascismohistóriaAlckmin