Esquerda e direita: de onde vem, o que significa e como é no Brasil
Todo mundo usa as palavras, quase ninguém sabe a origem. Começou com a disposição das cadeiras numa assembleia em 1789.
1. Nasceu numa votação
Em setembro de 1789, no começo da Revolução Francesa, a Assembleia Nacional discutia se o rei teria poder de veto sobre as leis. Para facilitar a contagem dos votos, os deputados que defendiam o veto absoluto do rei se sentaram à direita do presidente da Assembleia. Os que eram contra, ou aceitavam no máximo um veto limitado, ficaram à esquerda.
A divisão pegou. "Direita" passou a significar quem queria conservar a ordem, a tradição e a autoridade. "Esquerda" passou a significar quem queria mudar, em nome da igualdade. Ao longo do século XIX, os parlamentos de outros países europeus adotaram a mesma lógica.
2. O sentido mudou com o tempo
Em 1789, os liberais, defensores da liberdade individual, do comércio e de limites ao rei, eram a esquerda. Com a Revolução Industrial surgiram os movimentos operários e o socialismo, que passaram a ocupar a esquerda. Os liberais econômicos acabaram do outro lado.
Por isso, hoje, "liberal" na economia é associado à direita, e o mesmo rótulo pode significar coisas diferentes em países diferentes. Nos Estados Unidos, "liberal" quer dizer progressista, ou seja, de esquerda.
3. O que cada lado costuma defender hoje
São tendências, não regras: muita gente concorda com um lado na economia e com o outro nos costumes.
| Tema | Esquerda costuma defender | Direita costuma defender |
|---|---|---|
| Papel do Estado | Estado forte, que induz o desenvolvimento e corrige desigualdades. | Estado menor e mais eficiente; o mercado e a iniciativa privada geram riqueza. |
| Impostos | Mais impostos sobre os mais ricos para financiar serviços públicos. | Menos impostos e menos gasto público. |
| Empresas estatais | Estatais estratégicas (Petrobras, bancos públicos) devem continuar com o Estado. | Privatizar o que o setor privado faz melhor. |
| Programas sociais | Transferência de renda como direito, ampliada. | Programas focados e temporários, com porta de saída. |
| Trabalho | Mais proteção ao trabalhador e sindicatos fortes. | Regras mais flexíveis para facilitar a contratação. |
| Segurança | Atacar as causas sociais do crime e controlar as armas. | Penas mais duras e direito do cidadão de ter arma. |
| Costumes | Pautas progressistas: aborto, drogas, identidade de gênero. | Valores tradicionais, família e religião. |
4. Na verdade, são dois eixos
Uma linha só, da esquerda à direita, não explica tudo. Cientistas políticos costumam usar dois eixos: um econômico (mais Estado ou mais mercado) e outro de liberdade (mais liberdade individual ou mais autoridade e controle).
↑ mais liberdade · ↓ mais autoridade · ← mais Estado · → mais mercado
Os extremos dos dois lados se parecem num ponto: partido único, censura e perseguição de opositores.
Fascismo e nazismo nasceram na esquerda?
Em parte. É uma das discussões mais acaloradas do debate brasileiro, e os dois lados costumam contar só metade da história.
O que aproxima da esquerda: Mussolini foi do Partido Socialista Italiano por anos, até ser expulso em 1914, e o primeiro programa fascista (1919) tinha pontos como jornada de oito horas e imposto pesado sobre o capital. O partido de Hitler se chamava "Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães", e o seu programa de 1920 incluía nacionalizar grandes empresas e acabar com a "renda sem trabalho".
O que afasta: no poder, os dois regimes perseguiram socialistas e comunistas e acabaram com os sindicatos independentes. Em 1934, na "Noite das Facas Longas", Hitler eliminou justamente a ala do partido que mais falava em anticapitalismo. Um estudo publicado na Economic History Review mostra que o governo nazista privatizou empresas estatais na década de 1930, na contramão dos outros países. Os dois regimes se aliaram a industriais e proprietários de terra, e o próprio programa nazista de 1920 já tinha como eixo o racismo e a exclusão dos judeus.
A conclusão das fontes: a maioria dos historiadores classifica fascismo e nazismo como extrema direita: nacionalistas, racistas, autoritários e anticomunistas. A tese de que seriam "de esquerda" existe, foi defendida no Brasil pelo ex-chanceler Ernesto Araújo em 2019, mas é minoritária e apoiada sobretudo no nome do partido nazista e na origem de Mussolini. Alguns historiadores, como Roger Moorhouse, lembram que esses regimes misturavam elementos dos dois lados e que o rótulo simples pode atrapalhar mais do que ajudar. Mais sobre isso no texto "Fascista!": a palavra que virou xingamento.
5. Como é no Brasil
1922–1937: nascem os dois polos radicais. O Partido Comunista do Brasil (PCB), de 1922, na extrema esquerda; a Ação Integralista Brasileira, de 1932, inspirada no fascismo italiano, na extrema direita.
Era Vargas (1930–1945 e 1951–1954): o caso mais difícil de classificar. Na economia e no trabalho, Vargas lembra a esquerda: criou a CLT, o salário mínimo, a Petrobras e as grandes estatais. Na política, lembra a direita autoritária: governou como ditador no Estado Novo (1937–1945), com censura, e perseguiu comunistas e integralistas. Em 1945, criou dois partidos ao mesmo tempo: o PTB, trabalhista, com base nos operários, e o PSD, apoiado pelos setores conservadores. Daí a imagem de que fundou "o PSD com a mão direita e o PTB com a mão esquerda". Historiadores costumam classificá-lo como populista e nacionalista, um rótulo que não cabe na divisão entre esquerda e direita. O trabalhismo que ele criou foi herdado pela esquerda, com Jango e Brizola.
1945–1964: o PTB (trabalhista) ficava na esquerda, o PSD no centro e a UDN, liberal e conservadora, na direita.
Ditadura militar (1964–1985): regime de direita, anticomunista. Os partidos foram extintos e substituídos por dois: a ARENA, do governo, e o MDB, uma oposição tolerada.
Redemocratização: por causa da ditadura, quase ninguém queria ser chamado de direita. Em 1987, o cientista político Leôncio Martins Rodrigues chamou isso de "direita envergonhada": pela autodeclaração dos deputados, o Brasil parecia um país sem direita.
1994–2014: a disputa nacional foi entre PT (esquerda) e PSDB (que nasceu social-democrata, de centro-esquerda, e no governo adotou uma agenda econômica liberal). No meio, o "centrão": partidos que apoiam quem estiver no governo em troca de cargos e verbas.
De 2013 para cá: protestos de rua, Lava Jato e o impeachment de Dilma abriram espaço para uma direita que se assume como direita, conservadora nos costumes e liberal na economia. Ela chegou ao poder com Bolsonaro em 2018. Desde então, a polarização é PT contra PL, e o centrão continua decidindo votações.
6. Onde ficam os partidos hoje
Pesquisas com cientistas políticos e com os próprios parlamentares chegam a uma ordem parecida. É uma aproximação: dentro de cada partido há gente mais de um lado ou do outro.
PSOL · PCdoB · PT · PSB · PDT
MDB · PSD · PSDB
União · PP · Republicanos · Novo · PL
Fontes
- Direita, esquerda, centro: qual a origem destes termos — O Povo
- O binômio esquerda e direita ainda serve para ler o mundo? — Observador
- Esquerdas e direitas: os plurais necessários — Congresso em Foco
- Estudo sobre a "direita envergonhada" — Revista Opinião Pública (Unicamp/SciELO)
- Classificação ideológica atualizada dos partidos brasileiros — Revista Dados (SciELO, 2023)
- Historiadores e a tese do "fascismo de esquerda" — Revista História (Unisinos)
- O programa de 25 pontos do partido nazista (1920) — Wikipedia, com citação do Museu do Holocausto dos EUA
- On Socialism and National Socialism — Roger Moorhouse, historiador
- Against the Mainstream: Nazi Privatization in 1930s Germany — Germà Bel (Economic History Review)
- Ernesto Araújo afirma que nazismo "é de esquerda" e historiadores reagem — O Povo
- Não há como negar as raízes socialistas do fascismo — Gazeta do Povo (defende a tese)
- Populismo e trabalhismo além da divisão esquerda-direita — CPDOC/FGV
- O trabalhismo brasileiro em reabilitação — Revista de Sociologia (UFPE)
- Trabalho da UFMG mostra a ideologia dos deputados — Estado de Minas