A fuga de Flávio Bolsonaro — no lugar dele, eu também teria ido
Flávio não é inocente, e eu não estou aqui para defendê-lo. Mas quase metade do país votou nele, e quem decide o destino da família no STF é sempre o mesmo ministro.
28 de outubro de 2026 · 6 min de leituraComeço pelo que eu não estou dizendo: não estou dizendo que Flávio Bolsonaro é uma pessoa correta, nem que é inocente. Longe disso. O que eu digo é outra coisa: se eu estivesse no lugar dele, mesmo sendo inocente, teria tomado a mesma decisão de sair do Brasil. E quero explicar por quê.
Os fatos
A história ainda está em andamento. Este é o quadro em 28 de outubro de 2026:
- 25 de outubro: Lula vence o segundo turno com 51,79% dos votos válidos. Flávio fica com 48,21%, quase 60 milhões de votos. No dia seguinte, o PL reconhece a vitória de Lula.
- Antes disso: em uma transmissão nas redes, o irmão Eduardo diz que Flávio deveria deixar o país se perdesse. Segundo a Agência Brasil, essa fala pesou na decisão de Moraes.
- 26 de outubro: a PF entrega a Flávio uma decisão de Alexandre de Moraes. Ele tem 24 horas para entregar os passaportes, está proibido de sair do país e de falar com o advogado Willer Tomaz. No mesmo dia, Flávio publica um vídeo dizendo que não pretende sair do Brasil e que vai ficar para organizar a oposição.
- 27 de outubro: o prazo vence sem a entrega, e a PF cancela os passaportes comum e diplomático. Um aliado e uma fonte do governo americano confirmam à Reuters que Flávio foi para os Estados Unidos com a mulher e as filhas. A rota ainda tem versões conflitantes: segundo a CNN, a família cruzou a fronteira para Puerto Iguazú, na Argentina, e seguiu em voo particular, mas o governo argentino chegou a dizer que não tinha registro da entrada.
- 28 de outubro: segundo a CNN, registros da imigração americana mostram a entrada de Flávio em Miami com o passaporte diplomático que a PF já tinha cancelado.
De que ele é suspeito? Flávio é investigado num inquérito do STF, junto com Willer Tomaz, por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A PF aponta sociedade dos dois em empresas, principalmente a Alcazar Holding, e movimentações suspeitas de R$ 130 milhões entre março e maio de 2025. Tomaz já mora nos EUA. Os dois negam qualquer irregularidade. Flávio não é réu, não foi condenado e não tem mandado de prisão.
Por que eu teria ido embora
O juiz é sempre o mesmo, e é parte. Neste inquérito, Moraes não é a vítima. Mas é impossível olhar para ele sem lembrar o resto da história da família:
- Segundo a PF, Moraes seria o primeiro alvo do plano “Punhal Verde e Amarelo”. Mesmo assim, foi o relator do processo que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos.
- Eduardo fez campanha nos EUA por sanções contra Moraes, e conseguiu: em julho de 2025, o ministro foi incluído na Lei Magnitsky. Depois, Moraes foi o relator do processo que condenou Eduardo a 4 anos e 2 meses por coação, rejeitou o pedido para se declarar impedido e mandou prendê-lo.
- Agora é o mesmo Moraes que decide sobre o passaporte do terceiro Bolsonaro.
O pai foi condenado por ele. O irmão foi condenado por ele, num caso em que o próprio Moraes era o alvo. Se eu fosse o Flávio, não acreditaria que ele me julgaria com isenção. Ninguém acreditaria.
Não há para quem recorrer. Enquanto Flávio for senador, o caso fica no STF, e o recurso volta para o próprio tribunal. Nos processos do pai e do irmão, a decisão ficou com a Primeira Turma, e no do Eduardo três dos quatro votos foram de ministros indicados por Lula.
O padrão assusta. Jair está preso e inelegível. Eduardo está condenado, inelegível e com mandado de prisão. Flávio, que acabou de ter 48,21% dos votos para presidente, agora é alvo. Em 2022, 49,1% votaram em Jair. Lula venceu as duas eleições, e venceu de forma legítima. Mas, depois de vencer, a impressão que fica é de que o objetivo passou a ser tirar do jogo quem disputa com ele. Quando os nomes de quem recebe quase metade dos votos do país vão sendo removidos um a um, sempre pelas mãos do mesmo ministro, metade do país tem motivo para se sentir silenciada.
Não é a primeira vez que alguém sai do Brasil
Sair do país para escapar de quem está no poder não é novidade na nossa história:
- Fernando Henrique Cardoso, que depois seria presidente da República por dois mandatos, deixou o Brasil logo depois do golpe de 1964, ao ser alvo de um inquérito policial-militar. Passou pela Argentina, viveu no Chile e terminou o exílio na França.
- Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos em dezembro de 1968, logo depois do AI-5. Soltos em fevereiro de 1969, ficaram confinados em Salvador até que os militares deixaram claro que a saída era o exílio. Viveram em Londres de 1969 até o início de 1972.
- O próprio Jair Bolsonaro foi para os EUA no fim de 2022, depois de perder a eleição. Voltou meses depois, e acabou condenado e preso. Para o filho, o recado parece claro.
Onde a comparação tem limite
Honestidade exige mostrar a diferença. FHC, Gil e Caetano fugiram de uma ditadura: não havia processo com direito a defesa, e o AI-5 tinha suspendido o habeas corpus. Flávio fugiu de uma investigação num regime democrático, com advogados, acesso aos autos e um país inteiro acompanhando.
Também há pontos que pesam contra ele:
- Ele disse que ficaria e saiu no dia seguinte. O vídeo de 26 de outubro não envelheceu nem 24 horas.
- A suspeita não é política. R$ 130 milhões em três meses, numa empresa em sociedade com um advogado investigado em outro caso, é uma pergunta que precisa de resposta, qualquer que seja o partido.
- O risco de fuga era real. Moraes mandou recolher o passaporte por medo de que Flávio fugisse, e ele fugiu. Daqui para a frente, a fuga é um problema que ele mesmo criou, e um descumprimento de ordem judicial pesa mais que muita acusação.
- Ninguém o mandou para a cadeia. Ele não estava preso, nem condenado, nem com mandado de prisão.
Minha opinião: Flávio não é um herói nem um perseguido inocente. Mas quando o mesmo ministro conduz os processos do pai, do irmão e agora o dele, depois de ter sido alvo da família, quem perdeu a eleição por pouco não tem por que confiar no próprio julgamento. Num país em que a Justiça fosse vista como neutra, a fuga dele seria indefensável. No Brasil de hoje, eu entendo. E, no lugar dele, faria o mesmo.
Fontes
A fuga
- Flávio Bolsonaro fugiu para os EUA, diz agência Reuters — Agência Brasil
- Moraes manda Flávio entregar passaporte e não se comunicar com Willer — CNN Brasil
- Flávio Bolsonaro entrou nos EUA com passaporte diplomático que PF cancelou — CNN Brasil
- Flávio chega com mulher e filhas aos EUA — CNN Brasil
- A fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA, 2 dias depois da eleição — Nexo
A investigação
Eleições de 2022 e 2026
- Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno — TSE
- Resultados da eleição de 2022 — TSE
Moraes, Jair e Eduardo
- Moraes seria o 1º alvo do plano de atentado, diz PF — Poder360
- Oposição comemora sanções dos EUA a Moraes — Poder360
- STF condena Eduardo Bolsonaro a inelegibilidade e a 4 anos de prisão — Agência Brasil
- STF condena Eduardo Bolsonaro por coação — Conjur
- Moraes determina emissão de mandado de prisão contra Eduardo Bolsonaro — Agência Brasil
Exílios na ditadura
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