Brasil · atualizado em 28 de outubro de 2026 Opinião · Fatos · Cobrança
República Brasileira Quem promete, deve

← Opinião

Opinião

Triplex, Bolsonaro e 8 de janeiro — dois pesos e duas medidas?

Lula não foi absolvido. Bolsonaro está preso. O 8 de janeiro foi golpe ou baderna? Os fatos, as dúvidas e onde cada lado exagera.

15 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Fatos com fonte no fim do texto Opinião do autor, assumida

Três casos dividem o Brasil, e nos dois lados muita gente mistura fato com torcida. Aqui eu separo as duas coisas: primeiro o que está documentado, depois o que eu penso.

1. O triplex: Lula não foi absolvido

A linha do tempo:

  • Julho de 2017: Sergio Moro condena Lula a 9 anos e 6 meses no caso do triplex do Guarujá.
  • 2018: o TRF-4 confirma a condenação e aumenta a pena. Lula fica preso de abril de 2018 a novembro de 2019, por 580 dias.
  • 2021: o STF anula as condenações. O motivo não foi a análise das provas. O tribunal decidiu, por 8 votos a 3, que a Vara de Curitiba não era competente para julgar o caso, e depois declarou Moro suspeito, isto é, parcial.
  • Janeiro de 2022: já na Justiça Federal do DF, o próprio Ministério Público reconhece a prescrição, porque o prazo cai pela metade para réus com mais de 70 anos. A juíza arquiva o caso e não há recurso.
  • Abril de 2022: o Comitê de Direitos Humanos da ONU conclui que Moro foi parcial e que Lula teve direitos violados. A decisão é uma recomendação e não obriga o Brasil a nada.

Conclusão: Lula não foi absolvido e não será julgado de novo. Ninguém analisou se as provas eram boas ou ruins, e o caso morreu pelo tempo. Ao mesmo tempo, ele não tem nenhuma condenação válida e é juridicamente inocente. Moro, por sua vez, lembra que nem o Comitê da ONU afirmou que Lula é inocente.

Quem diz “Lula foi inocentado” está errado. Quem diz “Lula é condenado” também está.

2. Bolsonaro: preso político?

Os fatos:

  • Setembro de 2025: a Primeira Turma do STF condena Bolsonaro a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e outros crimes.
  • Novembro de 2025: ele é levado para a sede da Polícia Federal depois de tentar violar a tornozeleira eletrônica.
  • Março de 2026: por questões de saúde, Alexandre de Moraes concede prisão domiciliar humanitária, prorrogada em julho, com tornozeleira e proibição de atos político-eleitorais.

Eu não considero Bolsonaro uma boa pessoa. Mas tenho dúvidas sérias sobre o processo:

  • Quem julgou: segundo a própria PF, Moraes seria o primeiro alvo do plano “Punhal Verde e Amarelo”. Ele foi, ao mesmo tempo, suposta vítima e relator do caso. Em qualquer outro processo, isso levantaria questionamentos.
  • Onde foi julgado: Bolsonaro já não tinha foro privilegiado, mas foi julgado direto no STF, por uma turma de cinco ministros. Coube recurso (embargos) à própria Turma, mas não houve segunda instância.
  • As testemunhas mudaram de tom: o ex-comandante do Exército, general Freire Gomes, contou à PF em 2024 que Bolsonaro apresentou uma minuta de golpe e que chegou a ameaçá-lo de prisão. No STF, em 2025, confirmou as reuniões, mas negou a ameaça de prisão: “isso não aconteceu”.
  • A delação: o acordo de Mauro Cid teve idas e vindas que a defesa questionou do começo ao fim.

Mas também há o outro lado, e honestidade exige mostrá-lo:

  • O ex-comandante da Aeronáutica, Baptista Júnior, confirmou ao STF as reuniões e a apresentação de uma minuta golpista aos comandantes.
  • A PF encontrou o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa sequestrar ou matar Lula, Alckmin e Moraes em dezembro de 2022. O general Mário Fernandes assumiu a autoria, mas disse que o plano “não foi compartilhado com ninguém”. A PGR afirma que Bolsonaro sabia e concordou.
  • Bolsonaro teve advogados, acesso às provas e julgamento público.

“Preso político”, no sentido clássico, é quem vai para a cadeia pelo que pensa, sem processo justo. Bolsonaro foi condenado por atos, num processo com falhas que merecem debate. Minha posição: o processo tem problemas reais, mas chamá-lo de preso político é uma afirmação mais forte do que os fatos sustentam.

3. O 8 de janeiro e o protesto de 2017

Manifestantes diante da fachada do STF confrontam a polícia em 8 de janeiro de 2023
Fachada do STF em 8 de janeiro de 2023. Foto: Agência Brasil / Wikimedia Commons.

Muita gente compara o 8 de janeiro de 2023 com o protesto de 24 de maio de 2017 contra Michel Temer. O protesto de 2017, chamado “Ocupa Brasília”, foi um ato de centrais sindicais e movimentos sociais contra as reformas trabalhista e da Previdência.

O que aconteceu em 2017: houve confronto com a polícia, e três prédios da Esplanada foram incendiados, entre eles dois ministérios. Pelo menos 49 pessoas ficaram feridas e 7 foram presas. Temer autorizou as Forças Armadas nas ruas e revogou o decreto no dia seguinte. Não encontrei registro de penas pesadas para os responsáveis.

O que aconteceu em 2023: milhares de pessoas invadiram e depredaram o Planalto, o Congresso e o STF. Centenas foram condenadas.

A diferença que a Justiça aponta é a intenção. Em 2017, o protesto era contra reformas. Em 2023, segundo a acusação, o objetivo era provocar uma intervenção militar para derrubar um presidente eleito. Há também um detalhe pouco lembrado: os crimes de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito só passaram a existir com a Lei 14.197, de 2021. Em 2017, eles nem existiam.

A diferença que eu questiono é a proporção. O caso mais simbólico é o de Débora Rodrigues, a cabeleireira que escreveu “perdeu, mané” com batom na estátua da Justiça. Ela foi condenada a 14 anos de prisão. No próprio STF houve divergência: o ministro Luiz Fux votou por 1 ano e 6 meses. Tratar quem pichou uma estátua como quem planejou um golpe é desproporcional.

O Congresso concordou. Aprovou o PL da Dosimetria, que reduz de um terço a dois terços as penas de quem agiu “em contexto de multidão” sem liderar nem financiar os atos. Lula vetou o projeto, e o Congresso derrubou o veto em 30 de abril de 2026, por 318 a 144 na Câmara e 49 a 24 no Senado.

Minha opinião: o 8 de janeiro foi grave e não pode ser tratado como passeio. Mas a resposta da Justiça foi desproporcional para muitos participantes, e o tratamento dado aos atos de 2017 mostra que nem toda depredação em Brasília recebeu o mesmo rigor.

Fontes

Triplex

Bolsonaro

8 de janeiro e 2017

JustiçaLava Jato8 de janeiroBolsonaro