O voto dos idosos em 2026 e as perguntas que ninguém quer fazer
A campanha de Lula mobilizou os eleitores acima de 70 anos. Isso é legítimo? E quem garante que o voto foi livre?
26 de outubro de 2026 · 4 min de leituraNo segundo turno de 25 de outubro de 2026, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21% dos votos válidos, uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos. Foi a primeira vez que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar virou a eleição. Uma das apostas da campanha para essa virada foi o eleitor com mais de 70 anos, justamente aquele que não é obrigado a votar.
Este texto não afirma que houve fraude. Afirma que há perguntas legítimas, e que elas merecem resposta.
O que aconteceu
Em 22 de outubro, três dias antes da votação, Lula participou de uma live com o deputado André Janones no “Exército do Lula”, um canal de WhatsApp com mais de 8 milhões de participantes. O pedido foi direto: que os mais velhos, que não têm mais obrigação de votar, fossem às urnas. Segundo a Agência Brasil, a atriz Marieta Severo também pediu o voto dos idosos e lembrou que votar “serve como prova de vida” para o INSS.
Na véspera da eleição, Janones deu ao grupo uma “última missão”: ligar para amigos e familiares e oferecer carona para quem não votou no primeiro turno, “respeitando a legislação eleitoral”.
E funcionou. No primeiro turno, a abstenção dos eleitores com mais de 70 anos já tinha caído de 58,8% (2022) para 49,1% (2026), segundo dados do TSE reunidos pelo Movimento Voto 70+. Cerca de 17,2 milhões de idosos estavam aptos a votar no segundo turno.
Vale um esclarecimento: quem fez a mobilização foi a campanha e a militância, não o governo como instituição. Isso importa, porque governo usando a máquina pública para pedir voto seria outra discussão.
A pergunta incômoda: esse voto foi livre?
Aqui estão as dúvidas que eu acho legítimas.
1. A lei não exige lucidez para votar. Desde o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), mesmo uma pessoa sob curatela, por exemplo com demência avançada, mantém o direito de votar. Não existe nenhum filtro de capacidade na seção eleitoral. A intenção é boa (não tirar direitos de quem tem deficiência), mas abre espaço para que alguém “vote por” um idoso que já não entende o que está fazendo.
2. O voto assistido. Eleitores com deficiência ou dificuldade de locomoção podem entrar na cabine com uma pessoa de confiança. Na grande maioria dos casos isso é ajuda genuína. Mas é exatamente aí, longe de qualquer fiscal, que a pressão de um familiar poderia virar decisão.
3. A mensagem do INSS. É verdade que o comparecimento à urna é repassado ao INSS e conta como prova de vida (Portaria PRES/INSS nº 1.408/2022). Mas quem não vota não perde o benefício: a prova de vida pode ser feita de outras formas, e não há bloqueio automático. Para um aposentado de 80 anos que ouve “votar serve como prova de vida”, a mensagem pode soar como “se não votar, perde a aposentadoria”. Não sei se foi a intenção, mas é uma forma de pressão que merece crítica.
O que diz a lei
- Coagir alguém a votar com violência ou grave ameaça é crime (art. 301 do Código Eleitoral).
- Oferecer vantagem em troca de voto é crime (art. 299 do Código Eleitoral).
- Transporte de eleitores organizado por candidatos ou campanhas é proibido (Lei 6.091/1974). Uma carona de um parente ou vizinho, não.
O que eu não encontrei
Até agora, não encontrei denúncia formal, investigação ou decisão do TSE sobre coação de idosos nesta eleição. A queda da abstenção pode ser explicada por mobilização, e mobilizar eleitor é parte do jogo democrático. A campanha adversária também pediu voto a todos os públicos.
Tratar todo voto de idoso como suspeito também seria injusto: a maioria das pessoas com mais de 70 anos é perfeitamente capaz de escolher o próprio candidato.
Então, o que cobrar?
- Que o TSE divulgue os dados de comparecimento por faixa etária no segundo turno, inclusive de voto assistido.
- Que o Congresso discuta regras mais claras para o voto assistido de pessoas com demência.
- Que ninguém, de nenhum lado, use o medo de perder a aposentadoria como argumento eleitoral.
Se você viu ou sofreu coação, denuncie pelo aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral, ou ao Ministério Público Eleitoral.
Fontes
- Lula é reeleito presidente — TRE-SP
- Lula participa de live do “exército” e estimula ida de idosos às urnas — Agência Brasil
- Na véspera da eleição, Janones deu “última missão” ao Exército do Lula — Metrópoles
- Abstenção de eleitores com mais de 70 anos cai — Times Brasil
- Idosas e idosos são obrigados a votar? — TSE
- É falso que voto não pode ser usado como prova de vida do INSS — Aos Fatos
- Como Lula deu a virada no 2º turno — Viva
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